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Sábado, 04 Junho 2016 17:39

Pesquisas sobre Plantas Medicinais são apoiadas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e CNPq em parceria com a Retisfito.

Pesquisas sobre Plantas Medicinais são apoiadas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e CNPq em parceria com a Retisfito. Foto: Altevir Zardinello

O Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG/MCTI), a mais antiga instituição de pesquisa científica na Amazônia brasileira, é reconhecido pelas pesquisas sobre a biodiversidade e a sociodiversidade amazônicas. Na interface destas duas linhas de pesquisa se inserem os estudos, coordenados pela pesquisadora Márlia Coelho-Ferreira, sobre plantas medicinais utilizadas por populações tradicionais e não-tradicionais da região e os aspectos culturais associados.

No intuito articular esforços interinstitucionais para fortalecer o conjunto de ações previstas no Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) na Amazônia, dentre elas ações voltadas à pesquisa, o MPEG vem participando informalmente, desde 2010,de um conjunto de atividades fomentadas pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), de forma alinhada com o PNPMF. Com a oficialização desta parceria em 2014, por meio do Acordo de Cooperação Técnico Científico com a Fundação Oswaldo Cruz (VPAAPS/Fiocruz-MS) e a Universidade Federal do Pará, o MPEG passou a integrar a Rede de Experiências, Tecnologias e Inovação em Saúde (RetisFito) que tem por objetivo articular atores e instituições no campo das Plantas Medicinais, da fitoterapia e dos fitoterápicos), estruturada sob a coordenação da VPAAPS/Fiocruz.

Foi neste contexto que, com apoio da RetisFito e do CNPq e sob a orientação da pesquisadora, Paula Maria Corrêa de Oliveira e Maria das Graças da Silva Pereira, por meio do Programa de Pós-Graduação em Botânica da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em parceria com o MPEG, conduziram seus estudos em um assentamento rural e em uma comunidade quilombola, respectivamente.

O trabalho da Paula, intitulado “Conhecimento e uso de plantas medicinais no Assentamento Paulo Fonteles no Distrito de Mosqueiro, Belém, Pará: uma contribuição para a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos” iniciou-se no ano de 2014 com o objetivo de caracterizar o conhecimento e uso associado às plantas medicinais utilizadas neste assentamento, visando contribuir para a inserção destas no SUS. O interesse em registrar esta prática surgiu a partir de uma visita das pesquisadoras Joseane Carvalho Costa, Márlia Coelho-Ferreira e Maria das Graças Pires Sablayrolles ao Assentamento, a convite do Sr. Francisco Samonek e Sra. Maria Zélia Machado Damasceno, coordenadores do projeto “Encauchados Vegetais da Amazônia”, em abril de 2013. Ao ser selecionada em 2014 para cursar o Mestrado em Botânica Tropical, e incentivada pelas pesquisadoras presentes naquela reunião, Paula deu prosseguimento às discussões iniciadas no ano anterior, obtendo o consentimento da comunidade para o desenvolvimento da pesquisa.

O Assentamento Paulo Fonteles localiza-se no distrito de Mosqueiro, a 70 km da sede do município de Belém. Criado em 2006, depois de vários anos de luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), este assentamento ocupa uma área de 930 ha, divididos em 60 lotes. Ao redor da casa de cada um destes, entregues individualmente a uma unidade familiar, os moradores mantêm seus quintais, onde desenvolvem suas atividades domésticas, cultivo de plantas ornamentais, medicinais e alimentícias, produzem carvão em fornos de barro e criam galinha, porco, pato e seus xerimbabos. Mais afastadas, estão as roças, onde cultivam mandioca, destinada à produção de farinha, que representa a principal atividade econômica dos assentados, ao lado do extrativismo vegetal. Não podemos deixar de mencionar que um grupo de moradores complementa sua renda pela participação no Projeto “Encauchados Vegetais da Amazônia”, dedicado à confecção de objetos diversos a partir do látex das seringueiras, de cultivo anterior à ocupação da área pelos assentados.

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                 Foto: Dissertação Paula Maria Corrêa de Oliveira - Assentamento Paulo Fonteles-PA

“A partir do relato de 61 moradores, registramos 147 plantas utilizadas com fins medicinais, das quais 115 foram identificadas. Há um equilíbrio entre o número de plantas nativas da Amazônia e introduzidas de outras partes do mundo e regiões do país, como o Nordeste e Sudeste, de onde vieram 13 moradores.

A maioria destas érepresentada por árvores e ervas. Entre as árvores, muitas são cultivadas nos quintais, especialmente por serem frutíferas como caju, goiaba, açaí, abacate, abacaxi, biribá, acerola, laranja e cupuaçu. Às matas de terra firme e várzea recorrem para coletar verônica, barbatimão, cajuí, unha-de-gato (cascas), amapá e sucuúba (látex). Os remédios, preparados de diversas formas, com destaque para os chás e macerados aquosos, são indicados para tratar males como gripe, diarreia, dor de barriga, febre, anemia, tosse, catarro no peito, bronquite, impigens, ferimentos, inflamações de mulher e problemas renais”, revela Paula.

Vinte e oito plantas apresentaram maior concordância de uso entre os entrevistados e, segundo a literatura científica consultada, 9 destas tiveram suas atividades terapêuticas comprovadas, sendo que 6 estão incluídas na Relação Nacional de Plantas de Interesse para o SUS (RENISUS). Além destas, outras 20 plantas registradas para este assentamento estão incluídas nesta lista. “Estes resultados demonstram a viabilidade de um número expressivo de plantas a serem propostas enquanto opção terapêutica nas unidades de saúde locais, seja por apresentarem concordância de uso, seja pelas atividades terapêuticas cientificamente comprovadas ou pela presença na Renisus”, conclui Paula.

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           Foto: Dissertação Paula Maria Corrêa de Oliveira - Assentamento Paulo Fonteles-PA

Maria das Graças conduziu seu estudo sobre a etnobotânica médica na comunidade quilombola de Tauerá-Açú, uma das 10 comunidades que compõem o Território Quilombola Ilhas de Abaetetuba, titulado em 2002 pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e Iterpa (Instituto de Terras do Pará). Este território se situa no município de Abaetetuba no Pará.

“A ideia de trabalhar em Tauerá surgiu quando descobri laços de parentesco com afrodescendentes, e assim nasceu uma curiosidade de conhecer melhor esse povo. A maneira que eu encontrei foi através da etnobotânica, mais especificamente voltada às plantas medicinais, já que este tema me interessa desde a graduação. O fato de ter um tio nessa comunidade facilitou minha aceitação, por parte dos quilombolas,para realizar a pesquisa. Antes de inicia-la, porém, segui todos os procedimentos éticos previstos na legislação que regulamenta o acesso ao conhecimento tradicional associado à biodiversidade. Com o consentimento da comunidade e tendo obtido a autorização do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), iniciei meustrabalhos de campo em 2014”, explica Maria.

A localidade conta com uma população de 600 habitantes, distribuídos às margens do rio Tauerá, que desagua na Baía do Maratauíra, e ao longo do ramal Tauerá-Açú, que liga a comunidade à sede do município de Abaetetuba, na região Guajarina. O fato de morarem em áreas de várzea ou terra firme lhes conferem modos de vida próprios, marcados ainda pelas atividades durante o verão e o inverno amazônicos, melhor dizendo, o período da estiagem e das chuvas, respectivamente. Assim, os moradores das margens do rio se dedicam ao extrativismo da floresta de várzea, cujo principal produto é o açaí, e à pesca de camarão. Limitados pelas inundações diárias, participam em consórcios de roças abertas pelos moradores do chamado “centro”, em alusão à terra firme, com os quais compartilham igualmente a produção. Por sua vez, aqueles que habitam o centro têm na agricultura familiar a sua principal atividade econômica. Cultivam macaxeira e mandioca nas roças familiares e milho, cacau, cana-de-açúcar e frutíferas diversas em seus quintais. Com a madeira proveniente da derrubada da área onde serão implantadas as roças, produzem carvão, vendido na própria comunidade. Produtos coletados na mata, como castanha-do-Brasil, piquiá e bacaba, complementam a alimentação, podendo ser vendidos na cidade quando a safra é muito boa.

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Foto: Dissertação - Maria das Graças Silva Pereira - Comunidade Quilombola Tauerá-PA

Em Tauerá-Açu, conforme relataram as 34 mulheres do Grupo de Mães local entrevistadas, as plantas medicinais são a primeira opção no cuidado com a saúde, por acreditarem na sua eficácia e se tratar de um conhecimento repassado por seus ancestrais, o que revela, de certo modo,a história cultural deste grupo social. Esta prática é reforçada portemerem os efeitos colaterais causados por medicamentos e pela precariedade dos serviços de assistência à saúde ofertados, assim como ocorre em outras comunidades amazônicas.

Dois reconhecidos especialistas tradicionais - assim denominados por conhecerem plantas da mata de uso terapêutico e atuarem como benzedor e “fazedor de garrafadas”- contribuíram ao enriquecimento das informações obtidas e ao acervo de 93 plantas documentadas. Parte destas é comprada de extrativistas das inúmeras ilhas do município de Abaetetuba ou em ervanários desta cidade, razão pela qual apenas 75 espécies foram identificadas. “É importante ressaltar que para uma planta ser cientificamente identificada, é necessário coletar amostras com flores ou frutos do indivíduo do qual se retirou a parte utilizada para fazer o remédio”, esclarece Maria da Graças.

As espécies identificadas expressam a equivalente contribuição entre a flora nativa e a flora introduzida, isto é, 54% são plantas brasileiras e 46% vieram de outras regiões do mundo. Enquanto quase todas as plantas da primeira categoria são nativas da Amazônia(37 espécies), mais da metade das introduzidas vieram do continente africano(20 espécies). Independente da procedência, erva-cidreira, macela, hortelã, boldo, sete-dores, caatinga-de-mulata, pirarucu, marupazinho, jucá, sicuriju, barbatimão, mucura-caá são exemplos de plantas comumente utilizadas.

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 Foto: Dissertação - Maria das Graças Silva Pereira - Comunidade Quilombola Tauerá-PA

Cultivadas nos quintais ou exploradas na floresta, as plantas medicinais entram na composição de decoctos, garrafadas, choques (tipo de garrafada de uso externo), banhos, xaropes eaté um tipo de unguento, chamado “fumentação”. O preparo deste leva folhas de cipó-pucá, óleo-elétrico e de plantas “finas” como arruda, catinga-de-mulata e pluma, colocadas a macerar em uma gordura animal (jacaré, pato ou ), à qual se acrescentam produtos de ervanários como Pílula de Jalapa ou Pílula Contra Estupor. A aplicação deste é cercada de cuidados com o doente e com quem o administra. Para a pesquisadora, este pode ser um preparado particular, quem sabe, relacionado à identidade quilombola.

É interessante observar que as plantas, preparadas de maneira simples ou mais complexa, tratam doenças e sintomas, atuam na prevenção de males e como propiciatórias.

Este estudo foi percebido pela comunidade de Tauerá-açu como uma maneira de garantir a documentação deste aspecto da medicina tradicional, por vezes ignorado pelos mais jovens, e que contribuirá para a manutenção e transmissão destes saberes aos seus descendentes quilombolas.

Os resultados das pesquisas de Paula e Maria das Graças serão entregues em cada comunidade e duas outras ações previstas levam em conta a aptidão e interesse respectivos. No Assentamento Paulo Fonteles, os moradores reivindicaram apoio para a implantação de um horto medicinal com o grupo de plantas destacadas na pesquisa, o que estáimplícito em uma das diretrizes do PNPMF, que é “Promover a inclusão da agricultura familiar nas cadeias e nos arranjos produtivos das plantas medicinais, insumos e fitoterápicos”. Entre os quilombolas de Tauerá-Açú está prevista a realização deuma oficina sobre as plantas medicinais nos cuidados básicos em saúde, no intuito de apoiar as ações do Grupo de Mães local.

O desenvolvimento desses dois trabalhos realizados por instituições com grande tradição em pesquisa no campo das Plantas Medicinais na Amazônia brasileira, envolvendo os saberes e fazeres da população do campo, celebra os avanços da RetisFito no que tange às parcerias estratégicas voltadas à promoção de arranjos interinstitucionais, tendo como princípio a valorização das tecnologias de produção e da diversidade dos saberes envolvidos nessa cadeia de conhecimento.

Entendemos que essa iniciativa é, também, inovadora, na medida em que possibilita, por meio das articulações interinstitucionais, olhar para as diversas políticas públicas, seja no campo da saúde, da cultura, ambiente, agricultura, desenvolvimento social e demais políticas que estejam, direta ou indiretamente, voltadas à temática das plantas medicinais e dos fitoterápicos. Além disso, esses arranjos colaborativos possibilitam o desenvolvimento de ações voltadas à promoção da saúde, por meio da geração de emprego e renda, tendo como enfoque o uso sustentável da biodiversidade, o fortalecimento da agricultura familiar, a estruturação de mercados e o acesso às Plantas Medicinais pelos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS)

 

Acesse as dissertações em:

http://retisfito.org.br/biblioteca-digital/item/673-conhecimento-e-uso-de-plantas-medicinais-no-assentamento-paulo-fonteles-no-distrito-de-mosqueiro-belem-para-uma-contribuicao-para-a-politica-nacional-de-plantas-medicinais-e-fitoterapicos

http://retisfito.org.br/biblioteca-digital/item/672-etnobotanica-medica-da-comunidade-quilombola-de-tauera-acu-abaetetuba-para

 

Texto:

Joseane Carvalho Costa

Márlia Coelho-Ferreira

Edição:

Mônica Souza