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Quinta, 10 Setembro 2015 22:10

Cultivo de plantas medicinais por alunos leva tratamento a pacientes em Arapiraca

Professora Emanoele Karina orienta os seus alunos durante o cultivo das plantas medicinais na horta da escola Professora Emanoele Karina orienta os seus alunos durante o cultivo das plantas medicinais na horta da escola Sandro Lima

Projeto com estudantes de escola municipal beneficiará doentes em hospitais públicos

 

Filhos e filhas de agricultores estão resgatando suas raízes na Escola de Ensino Fundamental Benjamim Felisberto da Silva, localizada na comunidade Gruta D’Água, na zona rural de Arapiraca, Agreste de Alagoas.

No local os alunos lidam com a terra, cultivando principalmente plantas medicinais, que são usadas para a produção de medicamentos que irão atender a pacientes dos hospitais públicos da cidade.

“Eu sentia que faltava alguma coisa dentro da sala de aula que incentivasse meus alunos a estudar mais, a se interessar mais pela escola. Também queria um projeto que fizesse com que as crianças lidassem com a terra, como seus pais, e não ficassem apenas vislumbrando ir para a cidade, sem conhecer a riqueza que possuem dentro da sua realidade, aqui no campo. A lida com a terra tem sido prazerosa. Faz parte da realidade dessas crianças”, conta a professora Emanoele Karine.

“Foi quando surgiu o projeto ‘Farmácia Viva, Saúde que Vem da Terra’ e as crianças começaram a cultivar plantas, produzir mudas e aprender todas as disciplinas tendo a horta como base. Enquanto estamos mexendo com a terra, produzindo mudas e cuidando das plantas, eu ensino as crianças sobre matemática, português, história, geografia e ciências. Desde que começamos com o projeto que a média dos alunos melhorou. A média da escola melhorou”, continuou.

Segundo Emanoele, em 2011 o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) da escola teve a média de 3.4. Em 2013 aumentou para 3.7 e a perspectiva é que a Benjamim Felisberto atinja a média 5 em 2015.

Centenas de crianças de 4 a 14 anos de idade são beneficiadas com o projeto, que atende aos filhos dos moradores de cinco povoados localizados na zona rural de Arapiraca: Cajarana; Brejinho; Lagoa do Mato; Taboquinha e Gruta D’Água.

Rafael Pedro Lopes da Silva, de dez anos, é aluno do 4º ano do Ensino Fundamental. Ele conta que já tem sua própria horta em casa e que começou a cultivar as plantas depois do incentivo dado pela escola.foto2

Foto:Sandro Lima

Filhos e filhas de pequenos agricultores da zona rural de Arapiraca reencontram suas raízes com o projeto “Farmácia Viva, Saúde que Vem da Terra”, onde cultivam e produzem mudas de várias espécies de plantas medicinais

“Eu aprendi aqui na escola a produzir minhas mudas e já tenho em casa algumas plantas. Tenho alecrim, capim santo e manjericão para fazer chá quando alguém da minha família adoece”, conta o menino.

José Enoque dos Santos Júnior, também de dez anos e estudante do 4º ano, conta que ficou com mais vontade de estar na escola depois que conheceu o projeto e passou a cultivar as plantas medicinais.

“As aulas ficam mais interessantes. Eu gosto muito do ‘minhocário’ e de produzir novas mudas”, comenta a criança.

No final do ano as crianças levam 20 mudas de plantas para começarem a cultivar suas próprias hortas em casa. Os alunos da escola municipal também ficam com um caderno de registro, onde eles mesmos catalogaram plantas e estudaram os seus benefícios.

“Quem está no projeto desde o início já tem sua horta em casa. Queremos que eles se tornem grandes pesquisadores e possam ajudar a salvar muitas vidas com as plantas medicinais”, disse a professora Emaoele Karine.

“O projeto faz com que essas crianças continuem no campo, deem valor à terra e também faz com o nosso aluno perceba que ele não precisa deixar a zona rural para se tornar um grande profissional, um médico ou engenheiro. Aqui eles têm acesso a uma boa educação e é muito prazeroso ver como eles gostam de estar na escola e principalmente ver que eles estão se reconhecendo como pessoas do campo, retomando suas raízes”, continuou. 

Entre as plantas cultivadas pelas crianças estão a unha de gato, babosa, guaco, espinheira santa e hortelã. Segundo a professora Emanoele, as plantas podem ser usadas no tratamento contra gastrite, úlcera, resfriados, tosse, problemas respiratórios, ferimentos, queimaduras e até prevenir contra ataques do coração.

Ainda de acordo com a professora, todas as plantas são orgânicas, ou seja, não são utilizados agrotóxicos no cultivo da horta na escola.

“Não temos apenas plantas medicinais. Aproveitamos todo o espaço para plantar também frutas, verduras e legumes. Não usamos nenhum tipo de agrotóxico. Para espantar as pragas usamos uma planta chamada nim indiano. Misturamos com água e pulverizamos as plantações três vezes por semana. Isso garante que nossa horta cresça saudável e totalmente orgânica”, explica.

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Foto: Sandro Lima

Rafael Pedro, de 10 anos, conta que tem a sua própria horta em casa para poder tratar dos seus familiares

 

“Por conta desse cultivo, até a alimentação dos alunos melhorou. Apesar de serem filhos de agricultores, eles não tinham o costume de comer salada, e agora comem com gosto, porque são eles quem plantam. As famílias do campo costumam se alimentar com o básico que é o feijão, o arroz, a carne e a  farinha. Agora as crianças estão levando o costume de comer salada para casa”, continuou.

 

Ministério da Saúde investe na Farmácia Viva das crianças

O projeto recebeu recursos do Ministério da Saúde para que fosse ampliado e com isso, a fabricação de medicamentos aumentasse, podendo atender aos pacientes dos hospitais públicos que sofrem principalmente com problemas respiratórios.

 “Conseguimos a aprovação do projeto no Ministério da Saúde com o projeto de assistência farmacêutica e recebemos uma verba de 294 mil reais para investir no cultivo das plantas medicinais e na fabricação dos medicamentos. As crianças cultivam, produzem novas mudas, e as plantas são levadas para outra escola municipal, onde temos um laboratório que será ampliado com o recurso”, explicou a coordenadora Ednalva Pinheiro.

A escola municipal onde os medicamentos são produzidos é o Centro de Apoio às Escolas do Campo, também localizada na zona rural de Arapiraca.

Com o recurso recebido pelo Ministério da Saúde, o laboratório será ampliado e a quantidade de medicamentos, pomadas e sabonetes medicinais será aumentada. Equipes das Secretarias Municipais de Educação, Saúde e Agricultura de Arapiraca realizam um trabalho conjunto para a realização de cada etapa do projeto.

“Os alunos cultivam as plantas e as equipes de profissionais das secretarias da Educação, Saúde e Agricultura de Arapiraca trabalham na produção de xaropes, pomadas e sabonetes que serão utilizados no tratamento de pacientes do SUS”, explicou a coordenadora.

Ednalva Pinheiro conta ainda que o projeto já recebeu vários prêmios nacionais pelo incentivo dado às crianças do campo e está incluso na cartilha do Fundo das Nações Unidas Para a Infância (Unicef).

 

SUSTENTABILIDADE

 

Não é só a cultivar plantas medicinais que as crianças das duas escolas municipais de Arapiraca estão levando para o seu dia a dia.

“Nós temos uma caixa d’água com capacidade para armazenar 52 mil litros de águia de chuva, que é reaproveitada na escola Benjamim. Na época de estiagem, somos abastecidos com carro-pipa. Também temos um fogão solar para economizar gás. Agora queremos reaproveitar a água servida, aquela da cozinha, para regar a horta”, explica Edinalva Pinheiro.

A coordenadora conta também que os alunos fazem arte com material reciclado. No Centro de Apoio às Escolas do Campo, Edinalva mostrou o reaproveitamento de garrafas pet para a criação de hortas verticais e lixeiras. Também mostrou a arte em pneus, transformados em animais que enfeitam toda a área externa da escola municipal.

“A intenção é conscientizar essas crianças para o cuidado com o meio ambiente, principalmente porque o homem do campo depende da terra para sobreviver. Da terra limpa, do rio limpo, e esses meninos e meninas vão crescer conscientes do seu papel de preservar a natureza”, opina Edinalva.

“O limite da fitoterapia são as doenças incuráveis”

Para a médica homeopata Lílian Espindola o projeto da Escola de Ensino Fundamental Benjamim Felisberto da Silva não traz benefícios apenas para o desenvolvimento e resgate das raízes dos alunos da zona rural de Arapiraca. Ela aponta também os benefícios levados para os pacientes que serão tratados com os medicamentos fabricados a partir das plantas cultivadas pelas crianças.

 “A fitoterapia é uma prática natural e que beneficia muito os pacientes portadores de várias doenças. A prática ainda é usada como um tratamento complementar, mas costumamos dizer que o limite da fitoterapia são as doenças incuráveis. Qualquer doença pode ser tratada com os princípios ativos das plantas”, explica a médica.

 “A fitoterapia é um tratamento eficiente e duradouro e evita que o paciente parta para tratamentos invasivos. Pode ser sempre a primeira escolha de tratamento para a família do paciente, que tenha consciência dos benefícios que as plantas medicinais podem trazer”, continuou.

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Foto: Sandro Lima

Para médica homeopata, o tratamento com plantas medicinais trará muitos benefícios aos pacientes do SUS

De acordo com Lílian Espíndola, cerca de 40 espécies de plantas medicinais já tiveram o seu benefício comprovado cientificamente em tratamentos médicos.

“As plantas são excelentes para o tratamento de problemas respiratórios, ajudam a aumentar a imunidade, atuam como anti-inflamatórios, contra alergias, problemas gástricos, de pele, cicatrização de ferimentos entre tantos outros benefícios. É uma riqueza de ações de combate a doenças”, afirma a médica homeopata.

Lílian também vê com entusiasmo o resgate das crianças do campo às suas raízes.

“É uma integração de culturas, de gerações. Os avós dessas crianças com certeza já tratavam de muitas doenças usando plantas medicinais e o seu conhecimento passado de geração para geração. Levar essas crianças de volta para essa realidade é muito bom, é um resgate das nossas tradições”, conclui.

“Projetos assim podem diminuir a favelização das grandes cidades”

Há cerca de 40 anos os moradores do campo migraram para as grandes cidades em busca de uma “vida melhor”. Muitos nordestinos se mudaram com a família para São Paulo por conta da ideologia histórica de que é na cidade que estão as grandes oportunidades.

A opinião é do cientista social Jorge Vieira, que conta que, naquela época, a vida no campo foi praticamente abandonada.

“O processo de industrialização levou os homens do campo para a cidade grande. As pessoas sempre tiveram essa visão voltada para o urbano como sendo um lugar melhor para se viver, onde se tem acesso à educação e à saúde de qualidade. Mas são projetos como o da escola de Arapiraca que podem resgatar as raízes dessas crianças que nascem na roça”, opina Vieira.

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Foto: Sandro Lima

Com as plantas cultivadas pelas crianças são produzidas pomadas, xaropes e sabonetes medicinais

Para o cientista social, o êxodo rural teve um impacto perverso na sociedade e principalmente no processo de urbanização das cidades.

“O mundo rural foi todo para a cidade grande procurar emprego e isso resultou na favelização dos grandes centros urbanos. As pessoas saíam do campo sem estudo e sem capacitação profissional, e muitos não foram absolvidos pelo mercado de trabalho. Projetos que incentivam o homem do campo a permanecer na zona rural possuem um papel muito importante no processo de formação dessas pessoas, da valorização da sua raiz, das suas tradições e do seu lugar”, comenta.

Jorge Vieira acredita que o poder público deve investir mais nesse tipo de projeto, principalmente nas escolas localizadas na zona rural.

“A agricultura familiar é muito importante para manter essas famílias no campo. O investimento em escolas e hospitais na zona rural também. Mas um grande problema encontrado especificamente em Alagoas é que o poder econômico está com os grandes latifundiários, com os donos de terras. O homem do campo acaba se tornando mão de obra barata e isso dificulta o desenvolvimento das famílias de pequenos agricultores”, afirma Vieira.

“O poder público deveria realizar um estudo mais aprofundado sobre as potencialidades do nosso estado. Os gestores deveriam investir cada vez mais na agricultura, na pesca e no turismo, dependendo da realidade de cada região. Essas iniciativas fariam com que o povo continue morando na sua cidade, na zoa rural. É preciso começar pelas crianças, para que elas percebam a grande diversidade que existe na sua terra e não sintam vontade de ir embora para a cidade grande. Para que elas vejam que é possível viver com dignidade nas suas localidades. Isso faria com que as favelas esvaziassem cada vez mais”, concluiu.

 

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Foto;Sandro Lima

As crianças que participam do projeto estão cada vez mais interessadas nas aulas e rendimento escolar aumentou

 

Fonte: http://www.tribunahoje.com/

Thayanne Magalhães / Tribuna Independente